IA aplicada na prática: comece pelo problema, não pelo modelo
A maioria das iniciativas de IA começa pela ferramenta. O ponto de partida certo é mais antigo e menos glamouroso: a decisão de negócio que você quer melhorar.
A maior parte das iniciativas de IA que falham começa pelo lugar errado. Pelo modelo, pela ferramenta da moda, pelo fornecedor que apareceu numa demo. O ponto de partida correto é mais antigo e bem menos glamouroso: o problema de negócio.
IA não é um objetivo. É uma forma de melhorar uma decisão que já existe na sua operação. Quando o ponto de partida é a tecnologia, você acaba procurando um problema que justifique a compra. Quando o ponto de partida é a decisão, a tecnologia vira consequência.
Três perguntas antes de qualquer piloto
Antes de comprar GPU, contratar fornecedor ou abrir um projeto, responda três perguntas. Cada uma em uma frase.
- Qual decisão essa IA vai melhorar?
- Qual é o custo de errar essa decisão hoje?
- Quem é o dono do processo depois que a IA entrar?
Se você não consegue responder as três de forma curta e específica, não é hora de tecnologia. É hora de voltar para a mesa e entender melhor o processo. Essa volta custa uma conversa. Pular essa etapa custa um projeto inteiro.
"Usar IA no atendimento" não é um objetivo
Veja a diferença entre duas frases que ouço o tempo todo:
"Queremos usar IA no atendimento."
"Queremos reduzir o tempo médio de primeira resposta sem cair a satisfação do cliente."
A segunda é mensurável. Ela diz qual decisão muda (como e quando responder), qual é a métrica (tempo de resposta) e qual é a restrição (satisfação). A primeira é um post de LinkedIn. Quase todo projeto bom nasce quando alguém reescreve a primeira frase na forma da segunda.
Reversível, repetitivo, com dado e mensurável
Um filtro simples para escolher onde aplicar IA primeiro. Priorize processos que são:
- Repetitivos, porque o ganho se multiplica pelo volume.
- Reversíveis, porque o custo de um erro é baixo e você aprende rápido.
- Com histórico de dados, porque o modelo precisa de algo concreto para se apoiar.
- Mensuráveis, porque sem métrica você não sabe se funcionou.
Atendimento, triagem de documentos, marketing, backoffice e análise interna costumam marcar os quatro. Decisões irreversíveis, de alto risco regulatório ou que afetam pessoas diretamente vão para o outro balde: cautela, supervisão humana, sem pressa.
A intuição por trás dos modelos
Você não precisa saber treinar uma rede neural para decidir bem sobre IA. Mas entender a intuição ajuda a separar promessa de realidade. Para quem quer a explicação visual de como uma rede aprende, o 3Blue1Brown faz isso melhor do que qualquer slide:
O resumo
Tecnologia boa aplicada a um problema mal definido continua sendo desperdício. Comece pela decisão, escreva a métrica antes de ligar o modelo e escolha um primeiro caso pequeno e reversível. O resto fica mais fácil.
Comento esses bastidores no dia a dia no Instagram e no YouTube.